domingo, 12 de fevereiro de 2017

ao sol pôr

Dormito embalada
pelo vagar das ondas,
na carícia do sol pôr.

Espreguiço as pressas,
soltando-as no areal,
como quem quer calma.

Pouso-me no horizonte
para além de mim,
devolvendo aos céus o que não é meu,
reunindo grãos,
pedaços da minha essência.

Comungo desta respiração do mar,
da terra e do ar,
buscando-me, procurando-me
em desvario sossegado
com cheiro a maresia.




menina de ouro


Foto by Pérola

Enches meu colo
com teu sorriso,
inundando meus olhos
ao te saber 
pedaço de mim.

És ternura sem tréguas,
mimo tão bom
que a loucura
me espreita
na ausência de ti.

Fazes festa
em te seres,
encanto crescido
pelo tempo 
que sempre vem.

Contigo a luz é brilhante,
os dias vestem-se de cor,
meu coração bate mais forte
em amor 
à minha menina de ouro.




sábado, 11 de fevereiro de 2017

à janela


Vejo-te para além
da tristeza,
para além do cinzento
que me rodeia.

Toco-te sem o saberes,
ao de leve,
tão devagarinho
que ninguém me ouve.

Desejo-te tanto
que meu corpo se contorce
em espasmos de agonia,
aflição irrespirável.

Procuro-te nas brumas
da lembrança,
névoa nascida
desta demanda por ti.

Quero-te sem esta ansiedade
por demais sentida,
como quem está à janela
de outra casa,
de outra rua,
de outro eu.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

do teu colo


Meu amor não é simples,
não é linha reta
e não é frágil.
Não!

Meu amor é embaraçado,
é novelo sem ponta
e é forte.
É!

Meu amor tem dia sem hora,
ano sem começo,
contorno sem arte,
ferro sem solda.

Meu amor me faz enfrentar
 tempestades dispersas,
nesse jeito de amar,
despovoado de primaveras,
onde o fio do coração
pende no metal sem ouro,
por entre frios antigos.

Meu amor traça o ar,
em movimentos impulsivos,
oxigenados na busca 
de miragens ásperas,
na esperança da fundição morna
do teu colo.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Ensaio para Ela


Para lá do espelho,
na dimensão funda de se ser,
ela acreditava-se.

Era tal o desplante
que o atrevimento se envergonhava
de pôr em voz,
atitudes,
ou palavras 
o que a alma lhe segredava.

Para lá do mundo,
no espaço de si,
ela autorizava-se.

Era tal a ousadia
que o receio se minguava
em vontades 
para lá do conveniente,
em apetites fora de hora,
saboreando na pele
o sentir 
(também)
de ninguém a adivinhar.

Para lá de tudo o resto,
de tudo,
de todos,
e mais 
das imagens de si,
ela avaliava-se, 
existia na palpitação
da plenitude
de se saber mulher,
exclusiva,
de singularidade a preto e branco,
sem meios tons,
na inteireza feminina.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

minha mão


tenho na mão

nascentes, rios e poentes;
vales espraiados
na bainha de montanhas
por acontecer;

quimeras sopradas 
na ventania 
da liberdade:

ousadias escondidas,
segredadas,
na conspiração
de energias minhas,
alheias,
ou desconhecidas;

vida minha,
frágil,
desassossegada,
brotada em humanidades 
de opostos
em equilíbrios ténues
pesados em minha mão.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

de meus pés



Dizes que são a minha cara,
e eu,
só me desequilibro
perco o chão,
vacilo por entre
sedas e brilhantes.

São charmosas,
as tuas escolhas!

Fantasias-me
em vagarosas caminhadas
esvoaçando acima da calçada
com pés de púrpura calçados.

Mal tu sabes
das minhas ganas
de me despir
e,
de pés nus,
correr no areal húmido
de beijos salgados.
onde cada grão,
colado nos meus pequenos pés,
é sensação guardada
em oceanos de vontades
de te envolver
na pele
que insistes em adornar.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

balada triste

Fazes ritmo na toada
em harmonias improváveis,
na textura dos sentidos,
que se bailam
por entre dedos
e solfejos soltos
em pressas demoradas.

Tocas perfumes
de outros aromas,
de outras cores,
de outros tons.

És assim,
maestro e instrumento
de esquecimentos em sinfonia,
orquestra e batuta,
de delírios meus 
ao te querer,
em filarmónica,
por pautas nossas
no dó por ti escolhido,
restando-me no refrão
por acontecer.

Racionalizas cores,
os sons da música,
pulsar do meu ser,
cadência solta 
nas lágrimas 
de nevoeiro 
por onde me cego
nesta balada triste.


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

ensaio sem letra


É vã minha busca
do tempo,
da palavra,
da letra
a condizer com minh'alma.

Percorro cada recanto
da página branca,
cada fresta que possa abrir,
cada segundo fugidio.

Solto a pena
por entre dedos perdidos
em eras de outrora
onde o tempo 
segredava às palavras
a poesia do encontro.

Sobra-me o eco
desse tanto
onde escrevia nas linhas do teu corpo
a rima codificada.

É vá minha busca...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Ensaio para M


Passeava-se no limite
do despercebido
como quem está
e não se vê.

Era última
no desabrochar,
sozinha,
em recanto
sem história,
flor de semente
guardada
por entre pétalas
que despia.

Passeava-se no perfume
do mar,
da terra e de si,
aveludando  tempos . . .

Tempos de agora,
de antes
e por nascer.

Era despedida acabada,
(re)começo,
de mais um passo
naquele passeio.

realidade sem poesia


foto by Pérola

vivi sem filhos,
só era filha.
vivi sem telemóvel,
escrevia cartas.
vivi sem Net,
percorria a enciclopédia.
vivi sem mãe,
e ainda aqui estou.
vivi sem pai, 
porto de abrigo
ou amor incondicional
e não morri.
vivi de solidão,
refugiava-me em mim.
vivi acampada,
fui feliz.

Já vivi com tantos 'sem'
que a memória se esqueceu.
Foi-me realidade sem poesia,
a meus olhos,
no meu sentir.

Basta-me!
Transbordei-me de ausências.

Quero os 'com'
mesmo que vazios,
disponíveis para preencher
ou deixar dessa forma.

Quero ser a minha realidade,
eu, 
tão só!



terça-feira, 24 de janeiro de 2017

sou-me



Sou-me em outras eras,
outras histórias,
outras vidas,
sonhos e desejos
escritos em miragens,
ilusões,
sombras 
do que quero.

Escrevo-me em pergaminhos.
 desbotados,
com letras confundidas,
nas palavras trocadas
de tempos sem vida,
em dores mal apagadas.

Sou-me na escrita triste
de verso sem rima,
poema por escrever,
angústia na inquietação
de me alinhavar 
em rascunhos carentes
de tinta,
de caneta,
de mim.

sábado, 21 de janeiro de 2017

a ler



Leio-te, 
o sorriso a soletrar 
cada sílaba,
cada expressão tua,
como se fora a última.

Percorro-te
o corpo a pausar
cada parágrafo,
cada saliência tua,
como se fora única.

Urge-me o calor teu,
a demora tardia
de querer mais.


E de tanto querer,
perco-me
em moradas
de livros sem fim,
leituras inacabadas
de poesias e prosas,
fólios acrescentados
de magia esfaimada
de te ler.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

sunshine

Há dias assim,
em rosa,
cinzentos
ou simplesmente
estúpidos.
Nesses 
e em tantos outros dias
és-me raio de sol,
carícia de pele,
calor revolto,
vida em mim.

Há dias assim,
húmidos 
como teu prazer,
ou noutras línguas
sunshine you are
(for me).


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Ensaio para F


Prendi-me em tuas palavras
qual borboleta em teia de seda.
Foi assim,
de mansinho,
como segundos a escorrer 
por entre os grãos do tempo.
Tapei-me e reduzi-me
a tamanho meu
querendo mais,
muito mais,
o Tudo para lá de meu mundo,
o Tu que me entorna
em mares salgados
destes e outros hemisférios
no tempo 
sem tempo
de sempre te amar.


domingo, 15 de janeiro de 2017

MULHER


Mulher que ousas!

Vestes o teu querer,
perfumas-te na segurança,
em caminhar solto
de cabelo penteado
em tuas vontades

És-me inspiração,
ideal sugestivo,
motivo no querer
ser reflexo de ti,
ou,
ainda mais,
aspirar ao desapego
íntimo 
da liberdade.

Mulher sem franquia!

És na ausência de
supostas permissões,
isentas-te de outros
em desprendimentos
orlados de pérolas.

Como eu o quero ser!



sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

impressões musicais

´
São 
     Lembranças,
vestígios inscritos
em minh' alma.
    Sensações,
traços tatuadas
em minha pele,
     Ecos,
melodias pautadas
em minha medula.

É
a música da tua impressão
que me faz dançar
neste  rodopio lento
de te amar com som.


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

ensaio para S


Engarrafei aquele amor de outrora,
os beijos roubados
e outros tantos por dar.

Foram oceanos de ti,
trazidos em marés sem gaivotas,
de horizontes rasgados
com lâminas de inocência.

Guardei-te em lágrimas
salgadas como
embargos enfrascados
nas inquietações
do meu (nosso) querer.

Selei o teu corpo no meu,
a humidade da tua pele na minha boca
em eternidade fechada a sete chaves
de acesso restrito.

Fui flor colhida,
seiva derramada no viço
desse amor de outrora.

Tapei ousadias,
atrevimentos e partes de mim,
restando-me no todo
sem ti.


domingo, 8 de janeiro de 2017

encarcerada



Erguem-se paredes,
fecham-se jardins,
esgotam-se ares
na masmorra de me ser.

Soltam-se cheiros a bafio,
passados trancados,
entre quatro paredes
onde a respiração
se dificulta.

Sei duma nesga,
pequena janela
do lado de fora
onde o ar é puro
e o perfume das flores
me fazem sonhar.

Quero rasgar 
esse pequeno nada,
esventrar a brecha
com unhas,
dentes,
e tudo o que me restar.

Viro-me do avesso,
procuro forças
em busca desse lado de  fora,
porque,
por aqui,
tudo é escuro,
tudo é fechado,
em asfixias
onde perco a consciência,
a vontade de me ser.

Fechadas portas,
acessos
e travessias,
há que transcender 
a ausência de luz,
tem de ser . . .


sábado, 7 de janeiro de 2017

dança com flores


Oferece-me flores,
brancas,
harmonia perfumada
enlaçada
nas tuas mãos.

Simples,
como meus balanceios
desassossegados,
seguros em teu corpo.

Oferece-me flores,
belas,
como a música
entoada ao ritmo  
da nossa private dance.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

proibido



Não quero ter juízo,
razão
ou tino.

Permito-me ceder
ao corpo,
animal que mora em mim,
como instinto fatal.

Tento-me 
em pensamentos,
desvarios
e sonhos alucinados.

Livre de racionalidades
sombrias,
busca a luz
da tentação
simples dos meus sentidos,
pele e sangue na ferida
do sempre proibido.


domingo, 1 de janeiro de 2017

jardim meu


Em cada instante de mim
vou pisando trilho 
sem marca,
fazendo caminho
por entre mundos
desconhecidos.

Tem curvas,
pedras
e a marca de meus pés.

Tem o meu nome a história
pavimentada em chão,
dobrado
uma e outra vez
em inquietações solitárias,
traçado
na passada do desejo,
ganhando forma
o jardim meu.


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

com fome e sede



É rosa o teu desejo
em que latejo 
com pequenas mãos
deslizando 
em veludos teus,
maciezas tatuadas
no apetite
de me aconteceres.

É a improbabilidade
da ânsia
que me aporta
por mares e oceanos
revoltos
na sede de te amar.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Entardeço



Entardeço 
na areia
beijada 
por marés incontáveis,
como repetição de ti,
sempre desconhecida,
renovada,
em cada lua,
pequenina,
por vezes.

Enraízo 
por entre grãos,
pequenos nadas 
que se agigantam 
em tudo,
da mão cheia
às dunas sem eco.

É a minha praia,
o meu raio de sol 
último
a chegar primeiro
no poente lindo
em que te transformas
quando entardeço.


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

amo-te


amo-te 
com a ternura 
do olhar,
o veludo do desejo,
o nó da pele
e as sobras
de entranhas 
outrora vivas.

amo-te
com tempo,
soltando-me
e perdendo-me.

amo-te
porque
 nada mais resta, 
nem eu
ou
o meu amor.